É Tudo Verdade

Amir Labaki

Passados 64 anos, as revelações sobre a saga brasileira de Orson Welles parecem longe de terminar. O inacabado "It's All True"/"É Tudo Verdade" é como um fantasma camarada que de vez em quando nos vem alegremente revisitar.

A maior especialista na ficção documental latino-americana de Welles é a professora da UCLA Catherine L.Benamou. Numa passagem relâmpago por São Paulo, no início desta semana, para participar do simpósio internacional Visible Evidence, Benamou trouxe na bagagem dois tesouros. Nada menos que dois rolos de filme recém-restaurados documentando a aventura brasileira de Welles.

O primeiro deles foi aqui exibido em premiére mundial, Jamais havia sido exibido fora do arquivo da UCLA, onde Benamou há duas décadas trabalha na preservação e restauro do material rodado por Welles, no Brasil e no México, entre 1941 e 1942, para um filme originalmente inserido dentro do esforço de simpatia diplomática dos EUA para com os vizinhos do Sul, em plena Segunda Guerra.

O material inédito reúne cenas rodadas em 1942 durante o Carnaval de no Rio de Janeiro e a Procissão do Senhor Morto na Sexta-Feira da Paixão em Ouro Preto. A primeira parte traz registro de duas câmeras, uma em preto e branco e outra em technicolor (mas com suas imagem aqui exibidas também em p&b), nos clubes, salões e ruas cariocas.

Welles e equipe haviam acabado de desembarcar e filmavam em busca de compreender a festa popular que logo recriariam parcialmente nos estúdios da Cinédia, com Grande Otelo como protagonista. Benamou lembrou como Welles procurou captar os festejos de Carnaval em várias faixas sociais.

De saída, um clube de elite, com foliões de black-tie e vestido longo, com raras fantasias, girando e girando pelo salão. Alguns não se contém e acenam ou olham para a câmera. Num rápido flagrante, vemos o próprio Welles, de bigode fino e cabelo desgrenhado, empunhando uma câmera de mão.

A seguir, é a vez da descontração de uma gafieira. Ao fundo do plano, à direita, divisa-se a banda de sambistas. Toda a movimentação é muito mais solta e animada. Logo depois, uma rápida seqüência da folia no Theatro Municipal.

Na rua, primeiro, o desfile popular. Camisas listradas, muitas bahianas, alguns travestis. Passam alguns modestos carros carnavalescos. Em dois destaques, um par feminino e outro masculino de vencedores de disputas de fantasia. No Icaraí, em Niterói, toda uma sequência é dedicada ao "Carnaval das crianças".

Orson Welles não foi a Minas mas enviou a equipe da câmera em preto e branco para filmar a Páscoa. "É um material mais etnográfico", precisa Benamou, "tentando registrar o ritual como um todo". A beleza barroca das imagens é estonteante.

A segunda parte da apresentação de Benamou destacou o esboço de edição do próprio Welles, já de volta à Califórnia, feito em 1942 ou 1943, das filmagens da chegada triunfal dos jangadeiros cearenses ao Rio de Janeiro. "Quatros Homens e uma Jangada", ou simplesmentes "Jangadeiros", seria o desfecho de "It's All True". Reconstitui a jornada marítima de quatro pescadores, liderados por Jacaré, que partiram do Ceará rumo a então Capital Federal para exigir do ditador Getúlio Vargas a extensão à categoria dos benefícios trabalhistas recém-estabelecidos.

Barcos de pescadores e de passeio foram mobilizados para refazer em abril e maio de 1942 a apoteose da chegada dos jangadeiros em novembro de 1941 ao Rio. Imagens foram captadas por equipes em barcos e aviões.

Benamou contrapôs a recém-descoberta montagem por Welles,

que veio à tona há dois anos e foi mostrada mundialmente pela primeira vez em julho do ano passado, à montagem realizada para a versão de "It's All True" de 1993, da qual ela própria participou. Benamou definiu a de Welles como "mais sinfônica". O fluxo das embarcações se estende e se repete, vindo de todos os lados, remetendo, acho eu, a uma das seqüências capitais de "Encouraçado Potemkin"(1928) de Sergei Eisenstein. A edição contemporânea é mais diretamente narrativa.

"A versão de 1993 já se tornou a "história oficial" de "It's All True", provoca Benamou. Ela não defende refazê-la por inteiro mas garante que há muito ainda a revelar no material ainda não restaurado na UCLA: grande parte do material em technicolor rodado no Rio lá está ainda sob risco de desaparecimento, assim como quase todo o episódio rodado no México, "My Friend Bonito".

É patrimônio audiovisual do Brasil e da humanidade. Há três anos, neste mesmo espaço, conclamávamos a assumir nossa parte da responsabilidade. O descaso e a omissão continuam a ser, mais de meio século passado, a resposta nacional ao desafio de salvar as imagens brasileiras de um dos maiores cineastas de todos os tempos continuam. O Brasil continua cego a "It's All True".

(11/08/2006)

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