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Uma janela para o documentário nacionalAmir Labaki Esta coluna é um convite. Na próxima terça-feira, dia 26, às 23h35, o É Tudo Verdade estréia no Canal Brasil um programa semanal dedicado exclusivamente ao documentário brasileiro. O cardápio fílmico vai combinar clássicos do gênero e obras recentes, preferencialmente exibidos em edições anteriores do festival.Amplia-se, assim, no tempo e no espaço a experiência do evento, até aqui circunscrito há algumas semanas por ano nas sedes em São Paulo e no Rio de Janeiro e em itinerâncias por Brasília e Porto Alegre. Do público anual de cerca de 30 mil espectadores, o festival semanalmente estará disponível para mais de um milhão de assinantes com acesso ao Canal Brasil, dispersos pelo país. Não se trata da primeira parceria do É Tudo Verdade com uma TV por assinatura. Há cinco anos, durante os dez dias do festival, uma seleção de seus títulos foi por mim coordenada e apresentada num canal especial da DirecTV. Até hoje recebo mensagens eletrônicas de telespectadores que conheceram o evento pela telinha. As parcerias prévias com a televisão honraram-nos ainda com prêmios especiais concedidos pelo GNT, pela TV Cultura e pelo finado TV Cultura e Arte. O programa no Canal Brasil estabelece uma parceria em novos patamares devido à regularidade semanal e ao foco específico na produção brasileira. A nova faixa reconhece o momento especial por que passa o documentário, do qual é consequência e testemunha esta própria coluna. O crescimento recente da oferta de produções não-ficcionais no mercado marcou também a televisão, aberta ou por assinatura. A TV Cultura reestabeleceu um atuante núcleo de documentários, hoje engajado no projeto de co-produção nacional da dimensão do DocTV 2. A TV SescSenac tornou-se parceiro de produtores independentes e tem lançado ao menos um título inédito por semana. Por sua vez, ainda que com muito menor agressividade que em seus primeiros anos e apesar do excesso de reprises, o GNT é ainda uma vitrine importante para os documentários internacionais e brasileiros em faixas semanais como o Brasil Documental e GNT.Doc. A programação das primeiras quatro semanas adianta o perfil do É Tudo Verdade no Canal Brasil. Escolhi para a estréia um dos grandes clássicos desconhecidos do documentário no país: “Chico Antônio, Um Herói com Caráter” (1983), de Eduardo Escorel. O filme recupera um dos personagens mais marcantes que Mário de Andrade, o grande escritor modernista, conheceu numa viagem pelo Nordeste na década de 20. Chico Antonio, cujo centenário de nascimento é celebrado neste ano, era um cantor de côco do interior do Rio Grande do Norte. Mário de Andrade o havia fotografado e registrado sua música. Coube a Escorel eternizá-lo em filme. É um documentário singelo e tocante. Na segunda semana, será a vez de “Que Bom Te Ver Viva”, um original documentário rodado em 1989 por Lúcia Murat. O filme mescla cenas ficcionais e depoimentos para abordar a tortura no Brasil da ditadura militar instaurada em 1964. Mais especificamente, Lúcia Murat pesquisa as feridas no corpo e na alma das mulheres torturadas. A chocante publicação nesta semana de fotos do jornalista Vladimir Herzog pouco antes de sua morte por tortura nas mãos do DOI-CODI torna ainda mais oportuna a revisita ao forte longa de estréia de Murat. A história de um dos pioneiros do documentário no Brasil, Silvino Santos (1896-1970), encontra-se na atração de 9 de novembro próximo: “O Cineasta da Selva” (1997), de Aurélio Michiles. Português radicado na Amazônia, Silvino evoluiu de fotógrafo diletante para figura central do documentarismo mudo nacional. Seus títulos mais marcantes foram “No Paiz das Amazonas” (1922) e “No Rastro do Eldorado” (1925). Segundo o escritor amazonense Márcio Souza, sua obra é “a expressão artística mais apaixonante do ciclo da borracha”. Já em 16 de novembro, o programa tem o privilégio de recuperar para a TV, depois de ter sido censurado nos anos 70, um inovador documentário de João Batista de Andrade, “Wilsinho Galiléia”, que reconstitui a vida de um criminoso paulista. Trata-se de um dos títulos mais marcantes da áurea primeira fase do Globo Repórter, recuperada por uma retrospectiva do festival em 2001. Até o fim do ano, É Tudo Verdade no Canal Brasil vai apresentar obras de mestres como Eduardo Coutinho e Vladimir Carvalho, vencedores do festival como “A Negação do Brasil” de Joel Zito Araújo e muito mais. O objetivo é tornar-se sua cinemateca doméstica do documentário brasileiro. Espero por você. Até lá. (22/10/2004)
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