Um debate sobre o papel da critica

Amir Labaki

Há duas semanas participei de uma discussão em São Paulo sobre o papel da crítica com o diretor dos Cahiers du Cinéma, Jean Michel Frodon, mediado pela professora Maria Dora Mourão da ECA-USP. Comecei minha intervenção lembrando dos principais posicionamentos sobre a critica de cinema de dois de nossos maiores mestres, Paulo Emílio Salles Gomes e Jean Claude Bernardet. Poderíamos compará-los, no contexto francês, a André Bazin e Serge Daney. Se Bazin desbravou e Daney expandiu a escrita sobre cinema na França, Salles Gomes e Bernardet cumpriram e, no segundo caso, ainda cumprem por aqui papéis similares.

Em março de 1963, estreando como colunista do semanário Brasil Urgente, ligado à Igreja progressista, Paulo Emílio Salles Gomes escrevia, num texto batizado "Começo de conversa":

"Não perdôo ao critico cinematográfico o fato de seus artigos serem sistematicamente mais cacetes do que as fitas que comenta. Também não levo a sério a história do critico ser intermediário útil entre as fitas e os espectadores".

Não é difícil perceber na postura de Paulo Emílio ecos da de Bazin, quando este dizia: "A função do critico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto da obra de arte".

Em seu texto mais importante sobre o tema ("O cinema segundo a crítica paulista", editora Nova Stella, 1986), Bernardet também dialoga com Bazin. "Crítica nada tem a ver com verdade. Em estética, a verdade não é critério relevante", escreveu. Bernardet desenvolve então todo um programa próprio para efetivar a segunda parte do projeto baziniano, no processo se distanciado um pouco deste: "Em hipótese alguma, a critica -a que pratico- tem caráter normativo: não julga, não avalia, não analisa, não compreende fora das propostas que faz a obra. (...) Critica é pôr a obra em crise. E pôr em crise a relação da obra com outras obras. A relação do autor com a obra. A relação do espectador com a obra. A relação do critico com a obra".

Prossegue Bernardet: "a critica como uma sonda explorando a múltipla potencialidade de um filme. Nesse sentido, a critica é um exercício de imaginação que beira a ficção".

Aqui Bernardet transcende Paulo Emílio e Bazin e se aproxima de Daney. São companheiros de viagem, empenhados cada qual a seu modo a fazer o critico, como dizia Daney, "sair de sua toca".

Sintomaticamente se entitula "Voyager le Cinema", viajar o cinema, o ensaio de Frodon sobre Daney na revista Trafic 37, da primavera de 2001. O projeto de Daney, para evitar a transformação do crítico em "um dinossauro moralizador ou um guardião de museu", se baseia, lembra Frodon, na "vontade de ir e ver "lá e agora", de experimentar concretamente, fisicamente, e também adivinhamos ao lê-lo, sem dúvida, eroticamente", com o objetivo duplo de "reencontrar a capacidade de interrogar o mundo dentro de sua diversidade real, sociopolítica (e também geográfica, metereológica, gastronômica...) a partir dos filmes".

Se Daney viaja o cinema e o mundo para religar "o eu", "o mundo" e "os filmes", Bernardet viaja o cinema em seu anterior. O faz de duas formas: por meio da critica escrita que, segundo ele, "beira a ficção" e por meio da crítica-cinema, tornando-se ele próprio cineasta (São Paulo, Sinfonia e Cacofonia; Sobre Anos 60), articulador de uma "migração de imagens" que abre a possibilidade de uma "ensaística cinematográfica".

Defendo, assim, que estamos diante de um novo tipo de relação entre filme e crítico. Rompeu-se o pressuposto da escravidão do critico frente a um material outro, externo a seu universo, ao qual deve prestar apenas reverência. O filme não é mais tido como absoluto, independente da interferência do espectador, mesmo o especializado, o dito critico.

A situação cinema exige a via dupla: um filme não existe por si só. Um filme nunca é único mas tão plural quanto seus espectadores. Ninguém vê o mesmo filme.

Portanto, não cumpre traduzi-lo pois não há original, ou melhor, há infinitos originais criados pela parceira obra-cineasta-espectador. Não há mediação, mas criação paralela. O espectador, logo o critico, é um artista de outro tipo.

Um critico, e nisso concordam todos, não é um juiz neutro que profere sentenças: culpado, inocente, certo, errado, bom, mau. O cinema, ou antes, o filme não está mais "à mercê de seus críticos", como tanto irritava Paulo Emílio, assim como a critica parece se libertar do cinema, ou antes, do filme como obra referente a tão somente classificar, indicar ou traduzir.

Um filme é um filme é um filme assim como uma critica é uma critica é uma critica. Um filme inexiste sem o espectador critico. Um critico inexiste sem a obra catalisadora. Enfim, como diz Bernardet,"há muitas maneiras de falar da lua, não apenas a do astrônomo".

(15/09/2006)

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